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Segunda-feira, 21 de Setembro de 2026
Motivos por trás da diminuição de estrangeiros no Brasileirão são nobres, mas a realidade pode ser diferente

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Motivos por trás da diminuição de estrangeiros no Brasileirão são nobres, mas a realidade pode ser diferente

Uma mudança gradual afetará as equipes nas Séries A e B do Campeonato Brasileiro. Durante uma reunião realizada nesta segunda-feira (21), os clubes decidiram que o atual limite de nove jogadores estrangeiros será reduzido anualmente até atingir cinco em 2030. Somente Flamengo, Bahia e Londrina foram contrários à iniciativa. A Confederação Brasileira de Futebol ...

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Motivos por trás da diminuição de estrangeiros no Brasileirão são nobres, mas a realidade pode ser diferente

Uma mudança gradual impactará os elencos das equipes nas Séries A e B do Campeonato Brasileiro. Na reunião desta segunda-feira (21), os clubes decidiram que o limite atual de nove jogadores estrangeiros será reduzido a partir de 2024, até chegar a cinco em 2030. Apenas os clubes Flamengo, Bahia e Londrina se opuseram à proposta.

Para justificar a redução, a Confederação Brasileira de Futebol apresentou um estudo de sua área educacional, a CBF Academy. O objetivo é garantir mais espaço aos jovens jogadores. Entre 2021 e 2026, a participação de atletas sub-23 na primeira divisão caiu de 28,3% para 11,5%. Enquanto isso, a presença de atletas estrangeiros acima de 23 anos cresceu para 25% dos minutos jogados.

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As grandes ligas europeias foram usadas como parâmetro para comparação, demonstrando uma maior participação de jovens sub-23: França (38%), Inglaterra (32%), Espanha (31%), Alemanha (28%) e Itália (28%).

— Temos um diagnóstico que revela que jogadores brasileiros sub-23 têm jogado cada vez menos. Por outro lado, o número de estrangeiros aumentou consideravelmente nos últimos anos, o que diminuiu o espaço para os nossos jovens. […] Com a diminuição do limite, buscamos oferecer mais oportunidades aos jogadores sub-23 e aprimorar a qualidade técnica dos nossos times, especialmente a médio e longo prazo — explicou o diretor executivo da CBF, Helder Melillo.

Como ficará o novo limite de jogadores estrangeiros no Brasileirão

  • 8 jogadores do exterior em 2027;
  • 7 em 2028;
  • 6 em 2029;
  • 5 em 2030.

A justificativa parece ser nobre e justa. Entretanto, pode ser uma tentativa de atribuir a um único fator um problema que é muito mais abrangente, afetando até a seleção brasileira e que ganhou destaque após a eliminação precoce na Copa do Mundo contra a Noruega.

O colombiano Kevin Viveros celebra gol do Athletico ParanaenseO colombiano Kevin Viveros celebra gol do Athletico Paranaense (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)

Justificativa da CBF é válida e compreensível

Desta vez, a CBF demonstrou transparência ao justificar sua decisão com dados. É possível observar uma relação entre o aumento do número de estrangeiros e a diminuição da presença de jovens atletas.

Dentro dos clubes, os torcedores habitualmente questionam a presença de jogadores estrangeiros que não possuem a mesma qualidade técnica, ocupando o espaço que poderia ser de um jovem promissor.

Um exemplo é o São Paulo, que investiu em Aurélio Buta e Cedric Soares, mesmo com Igor Felisberto e Angelo Candido, que têm histórico de seleção de base e poderiam ter uma oportunidade no time principal.

Se esses jovens não tiverem tempo de jogo, provavelmente serão vendidos por valores inferiores ao que poderiam, especialmente num cenário em que muitos clubes estão endividados e precisando de receitas rápidas para manter suas operações. Angelo, por exemplo, já foi vendido ao Strasbourg, da França, desde os 16 anos por apenas 5 milhões de euros.

Se tivesse jogado, poderia ter um valor muito maior, talvez o dobro ou até o triplo. A própria CBF Academy constatou que atletas com até 20 anos representaram 50,1% das receitas dos clubes brasileiros provenientes de transferências internacionais, um número superior ao das cinco ligas europeias. Mais tempo em campo para os jovens pode resultar em mais lucro.

Dados sobre a presença de estrangeiros e as idades no Brasileirão

  • De 2021 a 2026, a média de idade aumentou de 27,3 para 28,5
  • Entre 2020 e 2026, a participação de estrangeiros com mais de 23 anos cresceu 3,2 vezes (de 7,8% para 25%)
  • 2025 foi o ano com o maior número de estrangeiros atuando no Brasileirão (162)

Breno Bidon, de 21 anos, em ação pelo CorinthiansBreno Bidon, de 21 anos, em ação pelo Corinthians (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)

Desafios com jovens não serão resolvidos facilmente

A nova regra de redução de estrangeiros não foi acompanhada de medidas que incentivem a utilização de jogadores jovens. Além dessa mudança, foi introduzida uma nova sistemática de inscrições: agora existem duas listas, uma para o elenco principal e outra para atletas sub-23, independente de terem sido formados pelo clube. O objetivo é que, em 2030, essa divisão ocorra em proporção de 50% para cada uma entre os 50 jogadores.

Contudo, isso ainda não resolverá todos os problemas relacionados à formação dos jovens.

Minutos para jovens podem não ser garantidos

Não se pode afirmar que os minutos anteriormente dedicados a jogadores estrangeiros serão totalmente transferidos para os sub-23. É provável que parte disso seja preenchida por jogadores mais experientes, devido à necessidade de preencher as lacunas nos elencos.

A nova regra pode remover um jogador estrangeiro da lista, mas não assegura que um jovem brasileiro seja colocado em seu lugar. Se um clube não tiver um jovem preparado para aquela função, pode optar por contratar outro jogador brasileiro mais experiente, promover um atleta que ainda não esteja pronto ou modificar a formação do elenco.

Quem garante que, ao invés de um Claudio Spinelli, o Vasco não buscaria outro atacante da mesma faixa etária na Série B ou em ligas menores?

O jornalista Victor Canedo fez um levantamento em seu canal no YouTube, mostrando que não são apenas os estrangeiros que ocupam minutos dos jovens. Entre 2014 e 2026, a minutagem concedida a jogadores com 35 anos ou mais triplicou, passando de 3,5% para 11,6% do total. Entre 2022 e 2026, o Brasileirão recebeu 254 jogadores sem custo, sendo que 58% deles tinham 30 anos ou mais. E não são todos estrangeiros.

No mesmo vídeo, Canedo apresentou dados que indicam que jogadores brasileiros com menos de 25 anos representam apenas 24% da minutagem em 2026, enquanto a porcentagem era de 45,9% em 2020.

Oscar retornou ao São Paulo aos 34 anos Oscar retornou ao São Paulo aos 33 anos (Foto: IMAGO / justpictures.ch)

Embora o Brasil continue sendo um dos principais celeiros de talentos do mundo, existe um receio significativo em relação à promoção de jovens jogadores. Alguns treinadores optam por preservar os jovens, que podem sentir a pressão da torcida, tanto no estádio quanto nas redes sociais, e não reproduzirem o mesmo desempenho que apresentavam nas categorias de base. O torcedor nem sempre compreende que esses atletas precisam de tempo para errar e aprender antes de evoluírem.

Em certas ocasiões, essa hesitação é resultado de um conservadorismo excessivo, e a necessidade do técnico de se manter no cargo, pois, nas gestões dos clubes, o que realmente importa é vencer, e um jovem nem sempre entregará resultados imediatamente.

Limitar a presença de jogadores estrangeiros não altera automaticamente a mentalidade dos dirigentes quanto ao risco de apostar em jovens talentos. O Campeonato Brasileiro possui um contexto específico, e é possível que algumas equipes se arrependam dessa medida no futuro — além de que o plano será avaliado anualmente pelas equipes e pode ser modificado.

Jovens continuarão sendo vendidos precocemente

Atualmente, o Shakhtar Donetsk possui cinco brasileiros entre 18 e 19 anos. O Strasbourg veio ao Brasil para adquirir Angelo aos 16. Os maiores talentos recentes do país também já tinham destino europeu antes de atingir a maioridade, como Vinícius Junior, Estêvão e Endrick.

A nova regra da CBF não proíbe esse tipo de transação, nem garante que, ao invés de um jogador estrangeiro, um jovem atleta permanecerá no país por mais tempo. O interesse europeu, devido à força da moeda estrangeira, torna as transferências muito atraentes para os clubes brasileiros, muitos dos quais enfrentam dificuldades financeiras.

Isso contradiz a ideia implícita que a confederação sugere, que é a formação do atleta brasileiro. Atualmente, parece que o jogador é desenvolvido para um perfil mais facilmente vendável no mercado internacional. Oferecer mais minutos para os sub-23, sem dúvida, não resolverá essa questão. A seleção brasileira não obterá os integrantes com as características que lhe faltam apenas por essa decisão da CBF.

Evolução da permissão de estrangeiros no Brasileirão

  • 2013: 3 jogadores estrangeiros permitidos por partida em competições nacionais
  • 2014 a 2022: 5
  • 2023: 7
  • 2024 a 2026: 9

Queda técnica será inevitável

Lescano e Colidio celebram gol do Vasco Lescano e Colidio celebram gol do Vasco (Foto: Thiago Ribeiro/AGIF/Sipa USA/Icon Sport)

Os clubes do Brasileirão não contratam apenas jogadores como "Spinellis" e "Cedrics".

O Vasco, por exemplo, possui atualmente 11 estrangeiros no elenco e passa por uma reformulação com a chegada de jogadores argentinos como Santiago Sosa, Alan Lescano e Facundo Colidio, além do colombiano Andrés Gómez. O São Paulo, que enfrentou problemas de zagueiros, foi auxiliado pelo português Domingos Duarte.

A nova limitação prejudica a capacidade desses jogadores se tornarem soluções, especialmente durante a temporada, quando os elencos já têm um número considerável de atletas estrangeiros.

Além disso, o Brasil poderá perder influência na região em relação a seus vizinhos, que poderão ter mais tempo com seus principais jogadores ou serem forçados a vendê-los para outros centros.

“A liga brasileira perde um pouco de competitividade como um todo, já que se destacou bastante nos últimos anos”, afirmou o CEO da SAF do Londrina, Guilherme Bellintani, após a reunião entre os clubes na CBF.

— Embora haja vantagens em abrir mais espaço para o desenvolvimento de jogadores brasileiros, também há desvantagens, como a diminuição da robustez econômica e do potencial esportivo da liga brasileira — analisou.

Jogador brasileiro pode se tornar mais caro?

Na Premier League, onde foi implementada a exigência de ter jogadores formados no futebol local, as vendas de jovens da base se tornam um lucro significativo nos balanços. Não é à toa que, mesmo que não sejam tão conhecidos, Morgan Rogers e Elliot Anderson figuraram entre as maiores vendas da história da liga na última janela.

No Brasil, em menor escala, o jogador nacional pode se valorizar pela necessidade de ser mais criativo na ausência de estrangeiros. Esse fenômeno pode afetar toda a liga e impactar clubes com menor capacidade financeira.

É prematuro afirmar como será a movimentação dos clubes brasileiros em relação às cinco vagas para jogadores estrangeiros e qual será o impacto real disso.

Entretanto, esta é uma iniciativa que, apesar de um discurso apelativo, também expressa uma ideia de que a simples diminuição do número de jogadores de fora do país resolverá todos os problemas: a formação do jogador brasileiro, os minutos para os sub-23 e, no final, a qualidade técnica do Campeonato Brasileiro. Trata-se de uma solução simplista para um problema muito mais intricado.

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