O grupo Legendários realizou, entre sexta-feira (25) e domingo (27), um evento privado no Centro de Treinamento Operacional (CTO) do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF). Cada participante pagou R$ 1.988 para permanecer durante os três dias de atividades.
O encontro, chamado “FIRE Experience 004”, foi apresentado pelos organizadores como uma imersão prática, emocional e espiritual destinada exclusivamente a homens.
A sigla FIRE significa “Força Imediata de Resgate Espiritual”. Segundo o grupo, o objetivo é preparar voluntários para atuar em situações de emergência, desastres, primeiros socorros e ações de apoio espiritual às vítimas e às equipes que trabalham na linha de frente.
A realização do evento dentro de uma estrutura pública e militar provocou questionamentos sobre os critérios utilizados para autorizar a atividade, a eventual contrapartida financeira e o emprego de bombeiros durante o encontro.
O CBMDF ainda não havia se manifestado sobre esses pontos até a última atualização da reportagem.
Barracas, tendas e loja foram montadas
O Centro de Treinamento Operacional é utilizado na preparação de bombeiros para combate a incêndios, salvamentos, resgates e outras situações de emergência.
Para receber o evento, uma grande tenda foi instalada em um terreno próximo ao estacionamento interno. O espaço passou por serviços de limpeza, preparação e nivelamento.
Cerca de 80 barracas foram montadas dentro do pátio protegido por alambrados para o pernoite dos participantes. A estrutura também contou com oito banheiros químicos.
Outra tenda foi instalada no estacionamento usado pelos militares. No local, funcionou uma loja com camisas, casacos, bonés e outros produtos da marca Legendários.
Segundo a apuração publicada pelo Metrópoles, o acesso a algumas áreas do centro ficou restrito aos participantes cadastrados e aos militares escalados para trabalhar no encontro.
A reportagem também afirma que a movimentação alterou a rotina normal da unidade durante o fim de semana. A corporação ainda não informou se treinamentos ou atividades operacionais foram suspensos em razão do evento.
Gratificações são questionadas
Uma fonte militar ouvida pela reportagem afirmou que teriam sido disponibilizadas 18 cotas de Gratificação de Serviço Voluntário para bombeiros atuarem na prevenção e na segurança interna do encontro.
A Gratificação de Serviço Voluntário, conhecida como GSV, é paga com recursos públicos aos militares que trabalham voluntariamente durante o período de folga.
O CBMDF não confirmou oficialmente o número de cotas, os valores envolvidos, os critérios da escala ou se houve algum tipo de ressarcimento por parte dos organizadores.
Sem esses esclarecimentos, ainda não é possível afirmar se o emprego das gratificações ocorreu de maneira irregular. O ponto central do questionamento é saber se recursos destinados à segurança pública foram utilizados para atender exclusivamente a um evento privado e pago.
Também não foram divulgadas informações sobre o instrumento jurídico usado para autorizar a ocupação do espaço, eventual pagamento pelo uso das instalações ou contrapartidas oferecidas à corporação.
Grupo diz que treinamento seguiu as normas
Após a publicação da reportagem, o movimento Legendários informou que o treinamento teve como objetivo oferecer capacitação técnica a voluntários interessados em atuar em emergências, resgates, primeiros socorros, desastres e ações de defesa civil.
A organização afirmou que a atividade foi realizada com orientação e apoio do Corpo de Bombeiros, seguindo as normas estabelecidas pela corporação.
O grupo também declarou que o treinamento estaria de acordo com a legislação brasileira sobre serviço voluntário e proteção e defesa civil, mencionando as leis nº 9.608/1998 e nº 12.608/2012.
Segundo a entidade, a atividade integra uma etapa avançada de preparação para voluntários que desejam atuar de forma segura e responsável em situações de crise.
Pontos ainda precisam ser esclarecidos
A manifestação dos Legendários apresenta a finalidade defendida pelos organizadores, mas não esclarece as condições administrativas e financeiras estabelecidas para a utilização do centro.
Ainda cabe ao CBMDF informar como o evento foi autorizado, se houve cobrança pelo uso da estrutura, qual foi a participação efetiva dos militares e se recursos públicos foram empregados.
A corporação também precisa esclarecer se o encontro interferiu nos treinamentos, na rotina operacional da unidade ou no atendimento prestado à população.
O espaço permanece aberto para manifestações do Corpo de Bombeiros e para a apresentação de documentos que esclareçam as condições da parceria.
Comentários: