De acordo com o depoimento da delegada da Polícia Federal (PF), Janaina Pereira Lima Palazzo, que lidera o inquérito da Operação Compliance Zero, o responsável pelo vazamento de informações sigilosas do caso Banco Master para a mídia foi um perito criminal federal baseado em Vilhena: João Cláudio Nabas. Este depoimento foi feito em março e teve o sigilo levantado recentemente pelo STF.
Nabas é um profissional de destaque na corporação. Com aproximadamente 20 anos de experiência na PF, ele comanda o Núcleo de Tecnologia (NUTEC) da unidade de Vilhena desde 2009, sendo reconhecido como um expert em crimes financeiros — atuando, inclusive, como instrutor em cursos sobre fraudes em investimentos oferecidos pela própria PF. Sua especialização o levou a fazer parte, remotamente a partir de Rondônia, da equipe que analisava os dados do caso Master.
Após a detenção de Daniel Vorcaro em 17 de novembro de 2025 e a apreensão de seu celular, a responsabilidade de periciar as conversas e arquivos extraídos do aparelho, registrados no Laudo 4281/2025, coube a Nabas.
A acusação começa neste ponto. No dia 5 de dezembro de 2025, segundo o depoimento da delegada, Nabas enviou a ela, via WhatsApp, um arquivo em PDF sem cabeçalho ou identificação de origem — um conjunto de prints retirados do celular de Vorcaro. O material continha a totalidade de um contrato de serviços advocatícios entre Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, e Vorcaro, além de supostas conversas entre o banqueiro e o ministro do STF.
Juntamente com o arquivo, segundo a delegada, foi enviado um áudio. Nele, Nabas afirmava que conversava "há anos" com a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, elogiava-a como "uma pessoa muito boa e muito séria" e encorajava a delegada a contatá-la, fornecendo seu contato. Palazzo diz ter recusado — "de forma educada, porém firme" — a entrar em contato com a repórter. Nabas teria insistido. Após uma nova recusa, no mesmo dia, ele teria enviado um segundo PDF, também sem identificação, intitulado "Toffoli e esposa", contendo informações sobre o ministro Dias Toffoli e sua ex-companheira, incluindo dados do resort Tayayá.
Na terça-feira seguinte, 9 de dezembro, a delegada afirma ter lido uma reportagem de Malu Gaspar em O Globo que continha "exatamente os dados compilados por João Nabas". Ela comunicou imediatamente à sua chefia — o delegado Marcelo Botelho e a Superintendência da PF no Distrito Federal —, reproduzindo os áudios. Com a concordância dela, Nabas foi retirado das investigações, e todos os seus acessos aos dados apreendidos foram cortados.
Meses depois, em maio de 2026, o perito se tornou alvo da 7ª fase da Compliance Zero e foi afastado da corporação. Em um pedido de busca autorizado pelo relator do caso, o ministro André Mendonça, a PF alegou que Nabas "de fato criou os documentos relacionados aos magistrados" e que ele teria "direcionado seus esforços em sentido contrário ao escopo das investigações", buscando "elementos desabonadores de ministros" para publicação.
É importante esclarecer um ponto, pois delimita responsabilidades. Os juristas consultados sobre a situação concordam em dois aspectos. O primeiro: se confirmada, a ação do perito configura, ao menos em tese, o crime de violação de sigilo funcional (art. 325 do Código Penal), com pena de até seis anos e perda do cargo — e há quem defenda uma hipótese mais grave, a de embaraço à investigação de organização criminosa, sujeito a pena de até dez anos.
O segundo ponto diz respeito à jornalista. Os especialistas são unânimes ao afirmar que Malu Gaspar não cometeu crime. Como observa o jurista Pedro Serrano, a autoridade pública não pode divulgar dados sigilosos, mas o jornalista que os recebe é protegido pelo exercício da profissão e pelo sigilo constitucional da fonte — e divulgar informações de interesse público é um direito e até um dever da imprensa. O próprio STF, ao autorizar as diligências contra o perito, destacou que elas não implicam "nenhum direcionamento contra jornalistas ou veículos de imprensa".
A situação do perito de Vilhena é uma parte central do quebra-cabeça que dividiu o STF. Foi esse vazamento, e os documentos decorrentes, que começaram a ser citados por lados opostos na crise: o ministro Gilmar Mendes os menciona como exemplo dos "vazamentos seletivos" que, segundo ele, contaminaram o processo; a defesa de Moraes os caracteriza como um "dossiê" elaborado de maneira irregular para atacá-lo. Os arquivos "Moraes.pdf" e "Toffoli e esposa.pdf", originados de uma análise feita remotamente a partir de Rondônia, tornaram-se, portanto, armas na disputa interna da mais alta corte do país.
Há uma ironia geográfica no episódio: uma das maiores crises institucionais do Supremo, disputada em Brasília entre seus ministros, tem uma de suas causas em uma sala de perícia em Vilhena, no interior de Rondônia. O que Nabas fez, por que agiu dessa forma, e por ordem de quem — se é que havia uma ordem — é o que a Polícia Federal agora busca esclarecer, investigando um de seus próprios membros.
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