A nova fase do caso que se arrasta há anos envolvendo o Manchester City teve início na última sexta-feira (25). Uma comissão independente declarou o clube culpado em 114 das 115 acusações apresentadas pela Premier League em relação a supostas violações de suas normas financeiras. O City ainda não se manifestou oficialmente sobre a decisão, assegurando que o processo está em andamento e deverá apelar.
As possíveis sanções, por sua vez, ainda não foram decididas. O veredicto traz à tona declarações de figuras proeminentes da rivalidade que envolve os Citizens ao longo dos anos.
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Em relação às acusações, Pep Guardiola comentou sobre a confiança que tem na diretoria do clube, enquanto Jürgen Klopp analisou a situação sob o ângulo da competição esportiva e das finanças em relação ao rival. José Mourinho fez intervenções menos frequentes, mas suas provocações eram focadas em títulos e na importância de seguir as regras.
As declarações ocorreram antes do estágio atual do processo e, portanto, não antecipavam o desfecho revelado na última sexta-feira. Contudo, agora ganham um novo contexto.
Guardiola e a promessa de deixar o City se fosse enganado
Guardiola durante sua despedida do Manchester City (Foto: PA Images / Icon Sport)
A declaração mais impactante de Pep Guardiola ocorreu em maio de 2022, quando o treinador falava principalmente sobre as alegações pertinentes à Uefa e a investigação que resultou na suspensão do Manchester City das competições europeias por dois anos — pena que foi posteriormente revogada pelo Tribunal Arbitral do Esporte (CAS).
No momento, Guardiola justificou sua defesa pública dos dirigentes do clube, afirmando que sua posição se baseava na confiança mútua construída.
— Quando eles são acusados de algo, eu questiono: “Me expliquem isso”. Eles justificam e eu confio neles. Eu disse: “Se vocês me enganarem, no dia seguinte não estarei mais aqui. Irei embora e não serei mais amigo de vocês”.
Guardiola destacou que essa confiança era um fator essencial para sua continuidade no Manchester City: “Eu confio em vocês porque acredito 100% desde o primeiro dia”, disse.
Essa afirmação ganhou relevância quando a Premier League apresentou, em fevereiro de 2023, as 115 acusações contra o clube. As alegações abrangem várias supostas infrações, incluindo questões financeiras, pagamentos a atletas e treinadores, regulamentos de sustentabilidade e cooperação na investigação. O City sempre negou as acusações.
Após a formalização do processo pela Premier League, Guardiola manteve a mesma postura pública. Em novembro de 2023, ao ser indagado sobre seu futuro, caso o clube fosse considerado culpado, pediu que as pessoas aguardassem o julgamento. E enfatizou que não condicionaria sua permanência ao nível em que a equipe estivesse.
— Não vou avaliar meu futuro (se) depender de estar aqui (Premier League) ou de estar na League One. É mais provável que eu fique se estivermos na League One do que se estivermos na Champions League.
Guardiola deixou o cargo de técnico do City em maio deste ano, ao término da temporada europeia, após completar dez anos à frente do clube. O treinador espanhol acionou uma cláusula para encerrar seu contrato um ano antes do previsto (que se estendia até 2027). Sua última partida oficial foi contra o Aston Villa, seguida por um desfile festivo com os torcedores.
Klopp transformou a discussão na rivalidade com o Liverpool
Klopp abraça Guardiola (Martin Rickett / PA Images / Icon Sport)
Jürgen Klopp abordou a situação do Manchester City de maneira distinta. Ao longo dos anos de disputa com Guardiola, o técnico alemão frequentemente levantou a questão do desequilíbrio financeiro que existe entre os clubes da Premier League e do futebol europeu em geral.
— Nós fizemos investimentos para montar nosso elenco. Agora parece que não estamos fazendo isso. Mas não estamos vivendo em um mundo de fantasia onde simplesmente se consegue tudo o que se deseja. Isso não é algo que pode ser feito constantemente. Aparentemente, existem quatro clubes no mundo que conseguem isso de forma contínua: Real Madrid, Barcelona, City e PSG — afirmou o ex-treinador do Liverpool na pré-temporada de 2019.
Em julho de 2020, após o CAS revogar a punição da Uefa que havia suspendido o City das competições europeias, Klopp caracterizou a decisão como “um dia ruim para o futebol”. Essa declaração ocorreu em um contexto diferente do processo atual da Premier League, mas expressava a preocupação do treinador com a aplicação das regras financeiras no futebol europeu.
despedida do Liverpool, o apresentador John Bishop lembrou que uma decisão sobre o caso poderia fazer com que o alemão deixasse de ter um título inglês e passasse a ter três, caso os campeonatos que perdeu por um ponto para o City fossem redistribuídos.
Klopp rapidamente transformou a hipótese em uma piada: “Se vocês organizarem um desfile de ônibus, eu estarei dentro! Não importa quanto tempo leve”.
A afirmação tinha um contexto esportivo bem específico. O Liverpool treinado por Klopp terminou a Premier League com 97 pontos em 2018/19 e 92 em 2021/22, ficando a um ponto atrás do Manchester City em ambas as ocasiões. Qualquer alteração na classificação, portanto, teria impacto direto sobre a trajetória dos Reds naquele período.
Mourinho fez provocações pontuais durante a discussão
José Mourinho nos tempos de Manchester United (Foto: Nick Potts / PA Images / Icon Sport)
José Mourinho participou do debate de maneira menos frequente, mas algumas de suas declarações ganharam destaque devido à relação com os títulos da Premier League. Em 2020, após a anulação da suspensão europeia do City pelo CAS, o português questionou a decisão, enfatizando que a punição deveria estar diretamente relacionada à comprovação de uma infração.
— Se o Manchester City não é culpado, não deveria pagar nem uma libra. Se é culpado, deveria ser banido — declarou Mourinho na ocasião.
A discussão voltou a envolver Mourinho em outubro de 2024. O português, que estava no Fenerbahçe, comentou sobre a possibilidade do Manchester United receber retrospectivamente o título de 2017/18, caso o City perdesse a conquista em decorrência do processo. Mourinho havia levado os Red Devils ao segundo lugar naquela temporada.
— Ganhamos a Liga Europa e terminamos em segundo lugar na Premier League (com o Manchester United). Acredito que ainda temos uma chance de conquistar essa liga (de 2017/18). Talvez punam o Manchester City com pontos e nós ganhemos essa liga. (Nesse caso, o United). Têm que me pagar o bônus e me dar a medalha (de campeão).
Pouco mais de um mês depois, Mourinho trouxe o assunto à tona novamente, fazendo uma provocação direta a Guardiola. O espanhol havia lembrado que possuía seis títulos da Premier League, contra três de Mourinho. O português respondeu deixando claro que seus troféus eram distintos da situação envolvendo o City.
— Quero vencer, mas quero vencer de forma justa e limpa. Se não puder vencer de maneira limpa, prefiro perder. Ele conquistou seis títulos e eu três, mas ganhei de forma justa e limpa. Não quero vencer lidando com 150 processos.
A declaração gerou mais uma troca pública entre os dois treinadores. Guardiola reafirmou que a comparação sobre os títulos foi uma brincadeira e reiterou que o Manchester City deveria ser considerado inocente até que o processo fosse finalizado.
Agora, com a nova decisão da comissão independente que declarou o City culpado em 114 das 115 acusações, resta saber como o clube irá recorrer da determinação.
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