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Quinta-feira, 01 de Outubro de 2026
Denúncias de violência política contra mulheres somam 1,5 mil no Ligue 180

Justiça

Denúncias de violência política contra mulheres somam 1,5 mil no Ligue 180

Mais da metade das vítimas são negras, com os maiores índices em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais

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É direito das mulheres participar da política sem enfrentar violência ou discriminação. Contudo, entre janeiro e agosto de 2026, a Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180 registrou 1.564 denúncias de violência política contra mulheres.

Essas denúncias resultam em 1.581 violações identificadas como violências políticas, em um ano de eleições gerais no Brasil. A diferença nos números ocorre porque uma única denúncia pode envolver múltiplos tipos de violência cometidos pelo mesmo agressor.

A secretária Nacional de Articulação Intersetorial e Interfederativa e Participação Política do Ministério das Mulheres, Sandra Kennedy, relaciona a violência política contra as mulheres a um fenômeno mais abrangente, que inclui o aumento da misoginia, da violência doméstica e do feminicídio em uma sociedade patriarcal.

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Segundo Sandra Kennedy, movimentos de extrema-direita pelo mundo questionam o direito ao voto feminino, promovendo a ideia do "voto familiar". No Brasil, as mulheres conquistaram o direito de votar em 1932.

“É assustador porque as violências políticas são, no fundo, questões estruturais, sejam elas no limite da ameaça à vida, sejam essas violências cotidianas e veladas que tentam desestimular a participação da mulher na política”, afirmou.

Alvos da violência

A representante do Ministério das Mulheres ressalta que as agressões ocorrem contra mulheres em posições de poder e decisão, como deputadas, vereadoras, senadoras, prefeitas, candidatas a cargos eletivos em diversos estados, além de defensoras dos direitos humanos, ativistas e membros de movimentos sociais ou organizações da sociedade civil.

A maioria das vítimas é composta por mulheres negras e pardas. Das 1.564 denúncias, mais de 53% (842) referem-se a violência política contra essas mulheres, seguidas por 590 (37,72%) denúncias envolvendo mulheres brancas. As restantes 132 (8,44%) foram denunciadas por mulheres de outras etnias.

Dados do Ligue 180 indicam que, no período de janeiro a agosto de 2026, as maiores quantidades de denúncias de violência política foram registradas em São Paulo, com 430 ocorrências; Rio de Janeiro, com 260; Minas Gerais (149); Bahia (89); Rio Grande do Sul (62); Paraná (61); e Santa Catarina (56).

Tipos de violação

As violações denunciadas incluem discriminação e tratamento desigual por gênero, raça ou etnia, ameaças e difamação de candidatas a cargos eletivos; divulgação de informações falsas; desqualificação de habilidades e funções; interrupção frequente de falas em espaços políticos; invasão na vida privada; julgamentos baseados na aparência física e no modo de vestir, entre outros.

Entre os crimes denunciados estão ameaças de morte e estupro, ataques racistas e transfóbicos, vandalização de materiais de campanha, coação, misoginia, constrangimento, intimidação e deslegitimação de mulheres em posições de poder, além de casos de processamentos judiciais.

“Agora, nesta disputa eleitoral, até quando vandalizam um banner de mulheres, não rasgam em qualquer lugar. Furam o olho, rasgam o rosto. Isso é uma afronta aos corpos das mulheres, à sua figura feminina”, lamentou Sandra Kennedy.

Comparação com 2025

No ano de 2025, o mesmo canal registrou 2.310 denúncias de violência política contra mulheres, totalizando 2.334 violações, em um contexto de mais de 155,1 mil denúncias sobre diversos tipos de violência contra a mulher. Se considerarmos o período de janeiro a agosto do ano passado, a Central de Atendimento à Mulher contabilizou 1.649 denúncias de violência política.

A secretária do Ministério das Mulheres ressalta que a diminuição pontual nos registros de um ano para outro não significa que o problema está diminuindo no país, nem permite a identificação de tendências. Ela aponta para a possibilidade de subnotificação das denúncias. “Os dados estão muito longe da realidade, até porque muitas mulheres não conhecem o canal (Ligue 180) como um espaço para denunciar”.

Justiça eleitoral

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) classifica a violência política de gênero como um dos principais obstáculos à participação e permanência de mulheres na política.

Com as eleições gerais se aproximando, a justiça eleitoral anunciou um novo recorde de casos de violência política contra mulheres. O total de processos relacionados ao tema subiu de 15, em 2022, para 177 este ano, sendo 26 casos diretamente vinculados à campanha para as eleições de 2026.

Protocolo de Enfrentamento à Violência Política

Os dados do Ministério das Mulheres fazem parte do Plano de Ação do Protocolo de Enfrentamento à Violência Política Contra Mulheres, que estabelece diretrizes para o Ligue 180 com o objetivo de prevenir, registrar, acolher, encaminhar e monitorar casos de violência política de gênero. Além disso, busca fortalecer a proteção dos direitos políticos das mulheres e responsabilizar os autores das violências.

O novo documento propõe uma ação integrada entre as instituições do sistema de Justiça e da rede de proteção às mulheres.

O atendimento às vítimas assegura sigilo, orientação sobre direitos, encaminhamento aos órgãos competentes e a adoção de medidas necessárias para interromper a violência e proteger a mulher.

Podem utilizar o protocolo candidatas a cargos eletivos; mulheres com mandatos eletivos; ocupantes de cargos públicos; lideranças comunitárias e sociais; defensoras de direitos humanos; representantes de movimentos sociais e organizações da sociedade civil; e ativistas e outras mulheres que atuem na política ou em espaços públicos, mesmo que não sejam candidatas ou eleitas.

Casos reais

A Agência Brasil recorda casos em que as ameaças às mulheres foram além do desestímulo à carreira política e colocaram em risco real e iminente a vida das mulheres que ocupam espaços de poder.

  • O assassinato a tiros da vereadora Marielle Franco, mulher negra e LGBTQIA+, em março de 2018, em uma via pública no Rio de Janeiro.
  • A deputada estadual de São Paulo, Isa Penna, foi apalpada na região do seio pelo também deputado Fernando Cury durante uma sessão na Assembleia Legislativa paulista (Alesp), em dezembro de 2020. O ex-deputado foi condenado por importunação sexual.
  • A deputada federal Maria do Rosário, em 2014, foi ofendida pelo então deputado federal Jair Bolsonaro, que afirmou no Salão Verde da Câmara dos Deputados que a parlamentar não mereceria ser estuprada por ser “muito feia” e que não fazia seu “tipo”.
  • A retirada da escolta armada da deputada federal Talíria Petrone (PSol-RJ) em julho deste ano, mesmo com ameaças de milicianos.

As interrupções sistemáticas de falas foram denunciadas pelas senadoras Simone Tebet e Soraya Thronicke (PSB-MS) e o rótulo de “nervosas” foi aplicado durante as sessões da Comissão Parlamentar de Inquérito da covid-19, em 2021, no Senado Federal.

Onde buscar orientação e denunciar

Mulheres que enfrentam violência política e qualquer pessoa que saiba de ocorrências desse tipo pode comunicar o fato por meio de diversos canais institucionais do poder Executivo, Ministério Público Eleitoral, Justiça Eleitoral e autoridades policiais. Entre eles, estão:

  • Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180: serviço gratuito, humanizado e sigiloso, disponível 24 horas por dia, todos os dias da semana. As denúncias podem ser feitas pelo telefone 180, por WhatsApp (61) 9610-0180, pelo e-mail [email protected] e por videochamada em Libras;
  • Ouvidoria das Mulheres do Conselho Nacional do Ministério Público;
  • Procuradoria-Geral Eleitoral, através da Sala de Atendimento ao Cidadão do Ministério Público Federal;
  • Ouvidoria Nacional da Mulher do Conselho Nacional de Justiça (CNJ);
  • Polícia Federal, por meio do canal Comunica PF e nas delegacias de Polícia nos estados;
  • Grupo de Trabalho Mulheres da Defensoria Pública da União (DPU) para assistência e orientação jurídica.
  • Em situações de emergência, deve-se acionar a Polícia Militar pelo telefone 190.
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