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Segunda-feira, 21 de Setembro de 2026
Dia Nacional da Pessoa com Deficiência: movimento e arte combatem o capacitismo

Saúde e Beleza

Dia Nacional da Pessoa com Deficiência: movimento e arte combatem o capacitismo

Dia Nacional da Pessoa com Deficiência: movimento e arte combatem o capacitismo

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“Ao sentir o calor do sol matinal, sinto uma vontade imensa de fotografar. Apreciei as frestas de luz que aparecem aqui em casa”. O calor do dia ilumina o fotógrafo mineiro Luciano Ambrósio, de 57 anos, residente na Ceilândia (DF), e o faz notar cada detalhe.

Após perder a visão aos 24 anos, Luciano decidiu registrar sua rotina de forma única, utilizando imagens e palavras.

A vida que chega com calor revela a visibilidade que os direitos de cidadania devem ter, especialmente em datas como segunda-feira (21), Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. No caso de Luciano, suas criações fotográficas expressam percepções de cenários que, por vezes, são hostis e apresentam obstáculos, mas também são vistos sob outras perspectivas.

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Ele está prestes a realizar um sonho: a publicação de seu primeiro livro, “Meu olhar” (120 páginas, em edição independente), com lançamento previsto para novembro, que trará imagens e 100 poesias.

Luciano descobriu a fotografia há 10 anos e utiliza uma câmera com o auxílio de um software de voz.

Ele mapeia o ambiente através do corpo, capturando a textura do chão, a inclinação do terreno e os sons ao redor. Com seu celular, recebe informações sobre o que está diante da câmera; essas descrições tecnológicas o ajudam a decidir o momento do clique na máquina adquirida com suas economias.

 
Dia da pessoa com deficiência. Piso tátil captado por Luciano Ambrósio, fotógrafo cego. Foto: Luciano Ambrósio/Arquivo Pessoal

Inclusiva

Natural de Lajinha (MG), o fotógrafo mudou-se para Brasília em 2002 para estudar biblioteconomia e trabalhar. Enquanto atuava como assessor no Senado, participou de uma oficina de fotografia inclusiva. Ele ficou fascinado ao ouvir a orientação: “busquem aquela imagem do cotidiano que ninguém presta atenção”. Ele, por sua vez, prestava atenção em tudo.

Folhas secas, pedrinhas no chão, luz e chuva refletidas. A câmera tornou-se uma extensão de seus braços e emoções que desejava alcançar.

“Coloco a câmera perto do chão e fotografo a grama. Adoro os degraus”. Ele enxerga a luz que se forma entre eles, ou as pessoas que caminham e dançam. Para isso, pede que coloquem um guizo no pescoço para localizar melhor.

“Eu passei mais tempo da minha vida como cego (desde os 24 anos) do que enxergando. Contudo, sei bem o que é a beleza visual. Isso permanece guardado em minha mente”. Ele recorda e imagina as frestas.

A esposa de Luciano, Edna Teodoro, de 54 anos e cerimonialista, ressalta que ele a surpreende diariamente com sua capacidade criativa. “O convívio é um grande aprendizado para mim. Ele é cheio de energia todos os dias”.

Ela se entristece ao testemunhar episódios de capacitismo (quando alguém menospreza uma pessoa com deficiência). “Recentemente, em um lanche no shopping, a atendente me perguntou o que ele queria, como se ele não pudesse entender. Eu disse que ela poderia falar diretamente com ele”.

Edna explica que Luciano percebe poesia em tudo, e já está pensando no seu segundo livro. “Meu sonho é viver da minha arte”.

 
A estilista goiana Juliana Santos sofreu uma série de ataques na internet. Foto: Juliana Santos/Arquivo Pessoal

Moda

Outra artista apaixonada pelo seu ofício é a estilista goiana Juliana Santos, de 40 anos, que reside em São Paulo e enfrenta um momento triste devido a uma série de ataques virtuais. Ela ingressou na Justiça com um pedido de reparação.

“Desejo ter paz novamente. E, para isso, é necessário que as autoridades respondam e que uma investigação esclareça o que ocorreu”, afirma.

Prints que reúne mostram comentários direcionados à sua condição de pessoa com deficiência. O impacto dessa exposição afetou diretamente sua atividade profissional, resultando em cancelamentos e perda de contratos. Em 12 anos de trabalho, Juliana já produziu mais de 2.300 vestidos.

No ano de 2024, quando começou a perseguição, ela produziu 678 vestidos, enquanto em 2025, esse número caiu para 68, quando a previsão era de 127. Até o momento em 2026, foram fechados 28 contratos.

“Minha arte é meu trabalho, meu sustento e o sustento dos meus filhos. Desejo que haja responsabilização pelo que ocorreu”, completa.

Juliana ainda menciona que um inquérito relacionado a denúncias de calúnia, perseguição e stalking está em andamento há mais de um ano, sem desfecho até agora.

Protesto

Hoje (21), a estilista apresentará um vestido como forma de protesto contra o capacitismo nas redes sociais. Ela planeja fazer uma intervenção artística na roupa utilizando 200 comentários ofensivos que coletou nos últimos dois anos.

Este é mais um dos momentos difíceis de sua vida. Na infância, passou por um incêndio acidental em casa aos quatro anos, enquanto estava sozinha com sua irmã bebê. Juliana perdeu dedos das mãos e ficou com cicatrizes em outras partes do corpo. Sua mãe a abandonou, e foi adotada por outra família.

Desde criança, sempre foi fascinada por roupas. Apesar das limitações, atrasou um pouco seu aprendizado para escrever e segurar objetos. No entanto, assim que se adaptou, começou a fazer aulas de pintura, artesanato e costura.

“Sempre gostei de moda. Pintava minhas roupas, desenhava, cortava. Não era como as outras adolescentes”.

Ela afirma que seu trabalho vai além da deficiência. “Minha deficiência é apenas um detalhe. Não são minhas mãos que fazem os vestidos, é meu cérebro, meu olhar, minha criatividade”.

“Podem perguntar!”

 
A professora de educação física Carolina Belfort é cadeirante e dá aulas no Riacho Fundo (DF). Foto: Carolina Belfort/Arquivo Pessoal

A professora de educação física maranhense Carolina Belfort, de 40 anos, também demonstra uma paixão criativa. Seu estímulo ao movimento e à saúde encanta os alunos de diversas idades na escola pública em que trabalha, no Riacho Fundo, região periférica do Distrito Federal.

Como cadeirante, no primeiro dia de aula, ela incentiva os alunos a perguntarem tudo o que desejarem. Carolina explica abertamente que perdeu o movimento das pernas ainda criança, após um tiro acidental em casa. “Com o tempo, eles nem se lembram mais disso”.

A professora é frequentemente recepcionada com abraços e beijos das crianças, que são apaixonadas pela maneira entusiástica com que ensina esportes e valoriza a atividade, um momento aguardado da semana. Ela orienta a todos sobre a importância de se afastar das telas. “Para tirar do celular, é preciso tirá-lo de casa”.

Na escola, além dos esportes, Carolina estimula os alunos a dançar, inclusive durante os intervalos. “Eles adoram”. Ela mesma testemunhou que, quando estava na escola, não se sentiu incluída nas atividades. “Eles não sabiam como orientar e tinham medo que eu me machucasse”, lamenta.

Desafios que ela enfrentou devido à deficiência e por ser mulher, segundo sua avaliação. “A chave foi virada. Foram muitas batalhas porque o capacitismo existe. Eu tenho que me provar duas vezes”. O sonho dela é trabalhar de forma especializada com outras pessoas com deficiência, incentivando-as a visualizar a vida de uma nova maneira.

Nas águas

A funcionária pública e arquivista brasiliense Daniela Francescutti, de 56 anos, vive intensamente dentro da água. Desde 2007, a natação, que antes era um prazer e um símbolo de saúde, agora é uma atividade séria, pois ela é uma atleta surda.

Daniela participa de competições masters de natação. “Gosto de nadar borboleta, medley e provas longas (800 metros e 1,5 mil metros)”. No seu primeiro ano, conquistou o sexto lugar na prova mais longa. “Foi o que já foi meu ouro”.

 
A funcionária pública Daniela Francescutti participa de competições masters de natação. Foto: Daniela Francescutti/Arquivo Pessoal

Em 2013, ela se arriscou em águas abertas. Oito anos depois, a Federação Brasiliense Desportiva dos Surdos a convidou para competir oficialmente. “Desde 2021, represento o DF nas competições nacionais de surdos”. Em Guaiaquil (Equador), este ano, trouxe três medalhas do Open Panamericano, enquanto a delegação brasileira conquistou 24 medalhas.

A participação em competições transformou completamente sua vida. Mudou sua alimentação, sono e aumentou seu desejo de colaborar com a equipe.

“Decidi eliminar o açúcar e foi a melhor decisão que tomei. Treino em piscina coberta às 7h da manhã. O sol me aquece ao sair da academia a caminho do trabalho”.

Além de competir, a natação representa algo que vai além das medalhas. “Para mim, a natação é meu templo de paz. É lá que busco minha paz interior”.

Letramento

A secretária nacional dos direitos da pessoa com deficiência, Isadora Nascimento, afirma que o Brasil precisa de um maior letramento sobre o que é o capacitismo.

“Muitas vezes, as pessoas reproduzem comportamentos sem perceber. Estamos realizando campanhas de conscientização para simplificar o conceito na prática”.

Ela ressalta que termos como “surdo” e “cego” são frequentemente usados de forma pejorativa em xingamentos. A secretária enfatiza a importância de levar o tema para as escolas e promover campanhas sistemáticas.

Na urgência de garantir direitos, Isadora Nascimento acredita que é necessário considerar os marcadores sociais. “Uma mulher negra com deficiência, como eu, enfrenta mais camadas de opressão do que uma mulher branca. Ou então uma pessoa LGBT com deficiência também enfrentará obstáculos. Precisamos entender onde estão essas pessoas”, orienta.

Ela argumenta que é essencial aprimorar esse mapeamento para expandir as políticas públicas necessárias para inclusão, visando mais direitos e oportunidades para que as pessoas possam ser o que desejam.

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