Ronaldo Nazário é um dos poucos atacantes que conseguiu unir velocidade, força, técnica e capacidade de improvisação em níveis tão altos. Com menos de 20 anos, o atleta brasileiro já havia deixado o Cruzeiro, cruzado a Holanda jogando pelo PSV e chegado ao Barcelona como uma das maiores promessas do futebol mundial.
A trajetória que se seguiu transformou essa promessa em uma verdadeira referência: uma temporada extraordinária na Espanha, impacto imediato na Itália, duas Bolas de Ouro, duas Copas do Mundo e uma coleção de jogadas que moldaram as expectativas para um camisa 9 durante a década de 1990 e o início dos anos 2000.
Ronaldo completa 50 anos nesta sexta-feira (18), e a passagem do tempo não diminui a grandeza de sua carreira. Em um período em que os atacantes eram cada vez mais cobrados pela quantidade de gols, ele construiu uma reputação que vai além dos números.
O futebol de Ronaldo era reconhecido pela forma como desmontava as defesas adversárias: arranques em alta velocidade, mudanças bruscas de direção, dribles em progressão e uma habilidade excepcional para finalizar mesmo após deixar os marcadores para trás.
Foi no Barcelona, durante a temporada 1996/97, que essa combinação de habilidades atingiu proporções globais. Ele balançou as redes 47 vezes em 49 jogos, com 34 gols em LaLiga, e conquistou a Copa do Rei, a Recopa Europeia e a Supercopa da Espanha.
O famoso gol contra o Compostela, em outubro de 1996, resumiu aquela temporada: ele recuperou a bola no próprio campo, disparou, resistiu às faltas e concluiu a jogada com uma finalização certeira. Assim, o apelido de Fenômeno deixou de ser apenas uma descrição para se tornar parte inseparável de sua identidade.
Da explosão na Europa ao camisa 9 que assustava adversários
Ronaldo celebra gol pela Inter (Foto: Buzzi / IMAGO)
A transferência para a Internazionale, em 1997, apresentou a Ronaldo um cenário distinto. A Serie A era conhecida por suas defesas robustas e sistemas defensivos extremamente organizados. Apesar disso, o brasileiro conseguiu marcar 34 gols em sua temporada de estreia no clube, sendo 25 no Campeonato Italiano e seis na Copa da Uefa, que a equipe conquistou.
Foi nesse período que a imagem de Ronaldo como um atacante praticamente incontrolável começou a se espalhar entre os adversários.
Alessandro Nesta, que enfrentou Ronaldo na memorable final da Copa da Uefa de 1998, o descreveu como o atacante mais difícil que já encontrou, e mais tarde rememorou aquele jogo como um verdadeiro pesadelo. Fabio Cannavaro foi ainda mais incisivo: ao ser indagado sobre o adversário mais complicado que já enfrentou, apontou Ronaldo e declarou que precisava “rezar” quando o via em campo.
Entretanto, a mesma fase em que Ronaldo atingiu seu auge físico também trouxe uma sequência de lesões que mudariam sua carreira. O joelho direito já havia exigido cuidados no PSV, mas os episódios mais graves ocorreram na Inter.
Em novembro de 1999, durante um jogo contra o Lecce, ele sofreu uma ruptura do tendão patelar do joelho direito. Após vários meses de reabilitação, retornou aos gramados em abril de 2000, mas praticamente na sua primeira ação em campo, sofreu uma nova lesão no mesmo local. A recuperação levou mais de um ano.
Nesse contexto, a narrativa de sua carreira ganhou um capítulo significativo.
O Fenômeno contra o próprio corpo
Ronaldo marcou os dois gols do título mundial de 2002, diante da Alemanha (Foto: Bildbyran / IMAGO)
Quando chegou à Copa do Mundo de 2002, Ronaldo estava cercado de incertezas. Após quase dois anos lidando com problemas no joelho, ele entrava no torneio sem o ritmo necessário. Não obstante, Luiz Felipe Scolari apostou no atacante enquanto a comissão técnica brasileira cuidava de sua preparação. A resposta veio nos gramados da Coreia do Sul e Japão.
Ronaldo marcou oito gols em sete jogos, finalizando como artilheiro e decidindo a partida que se tornaria histórica. Na final contra a Alemanha, em Yokohama, Oliver Kahn segurou o Brasil por muito tempo, até que Ronaldo apareceu duas vezes no segundo tempo.
Primeiro, ele aproveitou um rebote de um chute de Rivaldo. Depois, recebeu um passe de Kléberson, contou com a movimentação de Rivaldo e disparou de primeira para fazer 2 a 0. O Brasil se tornou pentacampeão, e o atacante que passou por duas cirurgias no joelho terminou a Copa como o principal goleador.
A recuperação de Ronaldo foi muito mais que um retorno aos campos. Ela reposicionou o jogador na história do futebol.
Quatro anos após a derrota para a França na final de 1998, quando chegou ao torneio como a grande esperança do Brasil, ele voltou ao palco principal e decidiu a partida mais crucial. Até hoje, os 15 gols marcados em Copas fazem dele o maior artilheiro brasileiro na história do torneio.
Real Madrid, últimos anos e uma marca que ficou
Ronaldo em ação pelo Real Madrid (Foto: Ulmer / IMAGO)
Após o Mundial de 2002, Ronaldo fez seu retorno ao futebol de clubes no Real Madrid. Sua estreia no Santiago Bernabéu foi contra o Alavés, e ele precisou de apenas um minuto para balançar as redes. No total, marcou 104 gols em 177 partidas pelo clube merengue, conquistando dois títulos de LaLiga, uma Copa Intercontinental e uma Supercopa da Espanha, além de terminar a temporada 2003/04 como artilheiro do Campeonato Espanhol.
Seguiram-se passagens por Milan e Corinthians. No clube paulista, já distante da forma física devastadora que encantou a Europa, Ronaldo conseguiu escrever mais um capítulo importante: foi campeão paulista e da Copa do Brasil em 2009 e ajudou o Timão a retornar ao cenário internacional. Em 2011, aos 34 anos, anunciou sua aposentadoria, encerrando uma carreira que também teve passagens por Cruzeiro e PSV antes do reconhecimento na Europa.
Os números ajudam a contar essa história, mas não conseguem explicar completamente a grandeza de Ronaldo. Sua trajetória foi marcada por gols, títulos e prêmios — incluindo duas Bolas de Ouro, em 1997 e 2002 —, mas principalmente pela impressão que deixou em quem teve a oportunidade de vê-lo jogar.
Ronaldo foi um centroavante capaz de conduzir a bola do meio-campo, enfrentar diversos defensores em alta velocidade, driblar o goleiro e finalizar com ambos os pés. Um atacante que parecia ter sido moldado para o futebol de transição que se tornaria cada vez mais comum, embora tenha feito isso em uma época em que ainda era raro encontrar um camisa 9 com tamanha mobilidade.
Assim, ao completar 50 anos, a memória do Fenômeno não se baseia em uma estatística específica. Ela se revela na imagem de um jovem de 20 anos rompendo a defesa do Compostela, no San Siro deixando adversários para trás, no corte preciso diante de Oliver Kahn e no penteado com duas linhas na cabeça após os dois gols na final de 2002.
Ronaldo não precisou de uma carreira linear para garantir seu lugar na história. Na verdade, talvez tenha sido o contrário: foi sua capacidade de retornar quando parecia tudo perdido que fez seu legado transcender os números e transformar o camisa 9 em uma referência que continua sendo lembrada por jogadores que o enfrentaram, torcedores que o acompanharam e gerações que só conhecem suas jogadas por meio de vídeos.
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