Os jogos entre Israel e Irlanda, válidos pela Liga das Nações, durante a Data Fifa deste mês de setembro, são marcados por estádios neutros, ausência de torcedores visitantes e uma cobertura televisiva reduzida. A partida, agendada para o dia 27 (domingo), gera tensão, especialmente após recentes protestos e desaprovação de torcedores, especialistas e políticos em relação ao confronto.
A escolha dos times provocou manifestações em ambos os países, refletindo as discordâncias em decorrência da ofensiva militar israelense em Gaza. Há um ano, a Federação Irlandesa de Futebol solicitou à Uefa que suspendesse a Federação Israelense de Futebol em protesto contra a ação militar de Israel, mas o pedido foi rejeitado.
A insatisfação já se faz presente antes mesmo do anúncio das partidas atuais. Quando a Irlanda foi sorteada no mesmo grupo que Israel – juntamente com Áustria e Kosovo – na Liga das Nações, em fevereiro, a FAI enfrentou pressões para que os jogos fossem boicotados.
Manifestantes marcham exigindo o cancelamento dos jogos da Irlanda contra Israel na Liga das Nações. Foto: IMAGO / ZUMA Press Wire
A federação irlandesa decidiu realizar uma votação entre seus delegados em julho, onde 75 membros votaram a favor da realização dos jogos, enquanto 32 se opuseram, conforme relatado pela “BBC”.
Na justificativa apresentada pela federação, o argumento era de que a não realização das partidas poderia prejudicar o futebol irlandês a longo prazo, afetando suas chances de classificação para a Eurocopa de 2028, que a Irlanda co-sedia com os países da Grã-Bretanha. Isso seria devido à possibilidade de sanções da Uefa por recusa em cumprir os jogos e à perda potencial de milhões de euros em receitas.
Conforme informado pela agência “Associated Press”, ativistas se reuniram em frente ao hotel da seleção irlandesa em Dublin, reforçando as tentativas de impedir a participação da equipe no primeiro jogo, que está agendado para este domingo. O segundo confronto, programado para o dia 4 de outubro, será realizado na Sérvia.
Técnico irlandês expressa desconforto com os jogos
O técnico da Irlanda, Heimir Hallgrimsson, manifestou seu desconforto em relação aos confrontos entre as seleções após anunciar a convocação.
— Não vamos entrar em detalhes sobre indivíduos, mas nenhum de nós se sente confortável jogando essas partidas. No entanto, uma vez que decidimos seguir adiante, devemos permanecer unidos e jogar como um só — declarou.
Quando questionado sobre como os jogadores manterão o foco na partida em meio ao clima de tensão e protestos, o treinador afirmou que a seleção não está “jogando com genocídio, estamos jogando contra o genocídio. Estamos jogando contra Israel, não estamos jogando com Israel”.
Heimir Hallgrimsson, técnico da Irlanda, durante coletiva de imprensa (Foto: IMAGO / Inpho Photography)
Em resposta, a Federação Israelense de Futebol se manifestou nas redes sociais, afirmando que o país “tem contribuído com o mundo e a humanidade” e rotulou as declarações do treinador irlandês como “ignorantes, hipócritas e estúpidas”.
— Temos contribuído para o mundo e para a humanidade em várias áreas, recebendo um número impressionante de Prêmios Nobel ao longo do caminho. Infelizmente, ainda não encontramos uma cura para a estupidez, a ignorância e a hipocrisia demonstradas por (Hallgrimsson). Não estamos jogando contra a ignorância, a hipocrisia e a estupidez, estamos jogando contra o treinador que as representa — declarou a entidade.
Protestos permanecem mesmo com mudança de local dos jogos
Diante do clima de tensão que envolve a partida, a Irlanda decidiu realizar o jogo em um local neutro, devido ao que a FAI descreveu como “desafios operacionais” que poderiam surgir caso o jogo fosse realizado em Dublin.
A Hungria foi escolhida como sede adequada, pois as duas nações possuem laços diplomáticos mais fortes. O país da Europa Central também se mostrou disposto a oferecer policiamento e segurança necessárias para a realização da partida de forma apropriada.
Quanto ao segundo jogo, que acontecerá no dia 4 de outubro, a Federação Irlandesa optou pela cidade de Backa Topola, na Sérvia. A escolha não foi explicada pela entidade, mas, por se tratar de uma localidade mais remota, facilitaria “a gestão da segurança e reduziria a possibilidade de protestos”, de acordo com a “BBC”.
Em 2025, o ministro das Relações Exteriores da Sérvia, Marko Duric, descreveu Israel como um dos “amigos mais próximos e parceiros estratégicos” do seu país. Nos últimos anos, a Sérvia também comprou equipamentos militares, incluindo drones e mísseis israelenses.
Protesto na sede da Federação Irlandesa de Futebol para exigir boicote à partida entre Irlanda e Israel (Foto: IMAGO / Inpho Photography)
Se havia a expectativa de que a escolha de estádios neutros reduziria a tensão, isso não ocorreu. Nas semanas recentes, torcedores de diversos clubes irlandeses protestaram contra os jogos durante as partidas do campeonato nacional, e mais de 160 atletas irlandeses assinaram uma carta aberta do grupo “Irish Sport for Palestine” (Futebol Irlandês pela Palestina, em tradução livre), solicitando um boicote.
Para ambos os jogos, não haverá ingressos disponíveis para torcedores irlandeses. No primeiro duelo na Hungria, alguns ingressos serão oferecidos aos torcedores de Israel. O segundo jogo, na Sérvia, será realizado com portões fechados.
Além disso, a Rede Nacional de Televisão da Irlanda decidiu diminuir sua cobertura dos jogos, e não arrecadará receitas de publicidade ou patrocínio, afirmando que apenas “cumprirá suas obrigações contratuais” de transmitir as partidas.
A Irlanda se destaca entre os países europeus que têm demonstrado apoio aos palestinos desde o início da ofensiva militar israelense em Gaza, em outubro de 2023. Até o presente momento, segundo o Ministério da Saúde do território controlado pelo Hamas, mais de 73 mil pessoas foram mortas em ataques israelenses, números estes considerados confiáveis pelas Nações Unidas (ONU).
Em maio de 2024, a Irlanda reconheceu oficialmente um Estado palestino, juntamente com a Espanha e a Noruega, e no mesmo ano, se uniu ao processo da África do Sul contra Israel por genocídio em Gaza no Tribunal Internacional de Justiça.
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