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As ameaças de morte e atos de violência sexual denunciados nesta quinta-feira (8) pela deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) refletem a alarmante situação de violência política que o Brasil enfrenta na campanha eleitoral de 2026.
De acordo com um levantamento realizado pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global, foram registrados 134 casos de violência política durante a campanha até o primeiro turno das eleições, que ocorreu no último domingo (4), o que equivale a um caso a cada nove horas. Desses, 70 mulheres foram as vítimas (52,2%).
Entre os 102 casos direcionados exclusivamente a candidatos, 60 envolviam mulheres como vítimas (58,8%). Apesar de representarem cerca de um terço das candidaturas, elas foram alvo de mais da metade dos episódios de violência.
Gisele Barbieri, coordenadora de Incidência Política da Terra de Direitos, destaca que a violência política de gênero desqualifica e intimida mulheres, tornando o cenário preocupante para a democracia no Brasil.
O ambiente digital, conforme explica, se tornou um espaço onde agressões ocorrem de forma sistemática. A falta de regulação nas redes sociais é um fator que complica o enfrentamento dessas violências. Apesar disso, a maioria dos casos (71) ocorreu nas ruas.
“Uma força-tarefa do Estado é necessária para oferecer respostas mais rápidas contra essas violências”, avaliou a pesquisadora em entrevista à Agência Brasil.
O total de 134 casos foi registrado durante os 50 dias da campanha eleitoral do primeiro turno, que se iniciou em 16 de agosto e terminou no último domingo (4).
Subnotificação
Gisele Barbieri esclarece que a pesquisa abrange principalmente casos que se tornam públicos, o que sugere que o número de 134 pode ser menor do que a realidade, pois muitos casos de violência não são denunciados.
Ela aponta que mulheres, em particular, podem se sentir ainda mais vulneráveis quando não há respostas ou ações das autoridades policiais. “Há uma subnotificação. Muitas vezes, os casos não chegam ao conhecimento público devido ao medo”, diz.
Ela defende que sejam adotadas providências e punições rápidas para que tenham um caráter pedagógico, considerando o impacto dessa violência na democracia.
Em crescimento
A pesquisadora aponta que o número atual representa um aumento em comparação ao primeiro turno de 2022, quando foram documentados 121 casos. Esta quarta edição da pesquisa revelou que a violência política foi cinco vezes mais comum em períodos eleitorais do que em períodos sem eleições (com uma média de um caso a cada 44 horas).
A coordenadora da Terra de Direitos considera inaceitável a naturalização de episódios violentos, que servem para intimidar as propostas dos representantes políticos.
“Esse clima de hostilidade, além de intimidar, causa rupturas profundas em nosso sistema democrático, exigindo do Estado uma resposta firme e proporcional à gravidade da situação”, destaca Gisele Barbieri.
Dentre os episódios registrados, 54 (40,3%) atingiram pessoas que ocupavam ou disputavam cargos federais. Outros 48 casos (35,8%) tiveram como alvo pessoas em cargos estaduais.
O tipo de violência política mais comum foi a ameaça (64 casos), seguida por 33 episódios de ofensa e 19 de agressão física. Também foram contabilizados 11 atentados, cinco casos de criminalização e dois assassinatos, sendo as vítimas um vereador e um secretário municipal.
Misoginia
Dos 70 episódios relacionados a mulheres, foram identificados:
- Machismo ou misoginia em 45 casos
- Racismo em nove
- Transfobia em cinco.
Entre os 32 episódios de violência física (agressões, atentados e assassinatos), as mulheres foram vítimas em 21,9% dos casos. Nos 97 episódios de violência simbólica, que incluem ameaças e ofensas, as mulheres foram alvo em 61,9% (60 casos).
Os assassinatos e dez dos 11 atentados envolviam homens como vítimas. As sete ameaças de violência sexual, por outro lado, tiveram mulheres como únicas vítimas.
Racismo
Pessoas negras corresponderam a 44,8% (60) de todas as vítimas de violência política no primeiro turno. Entre as mulheres vítimas, 19 das 70 eram negras, o que representa mais de um quarto.
“Enquanto os homens são atacados por suas atividades políticas, mulheres, pessoas negras e pessoas trans enfrentam também o racismo, machismo e transfobia que permeiam a sociedade brasileira”, afirmou Glaucia Marinho, coordenadora da Justiça Global.
Outros dados da pesquisa revelam que em 26 casos (19,4% do total de 134), o autor identificado era um agente público. Dentre estes, pelo menos 14 eram parlamentares ou governantes e sete, agentes de segurança.
Adicionalmente, nenhum dos 134 episódios documentados recebeu punição até a conclusão da coleta de dados. Durante a campanha, em pelo menos oito ocasiões, foram adotadas medidas urgentes, como a remoção de vídeos, suspensão de perfis e concessão de medidas protetivas.
A equipe de pesquisa considera que essas medidas podem interromper a violência, mas não asseguram a responsabilização dos autores.
Os estados com maior incidência de casos incluem São Paulo (16), Rio Grande do Norte (13), Minas Gerais (12) e Rio Grande do Sul (10).
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